Amanhã terei a primeira reunião com o grupo. O começo do fim. Na verdade, não é o começo e nem o fim. Porque nós já iniciamos o processo no semestre passado, com o nosso pré-projeto. Já estamos juntos há algum tempo, de alguma forma. E mesmo durante as férias, estivemos em contato, seja pelo facebook, seja pelo blog, embora eu ache que as pessoas ainda não estão usando bem as ferramentas virtuais – e eu me incluo nesta observação. E também não termina com a apresentação do espetáculo, em julho, porque depois vem a monografia e talvez eu ainda tenha que ficar um pouco mais, para cumprir a quantidade mínima necessária de créditos para graduar. E, além disso, é pouco provável, mas possível que o resultado deste processo venha a ser apresentado mais vezes, em Brasília ou até mesmo em circulação nacional. Quem sabe? Aconteceu com Adubo, está acontecendo com A Porca Faz Anos e Malva Rosa. Tenho esperança que possa acontecer inclusive com (RE)Cruzadas. Por que não acontecer também com a nossa diplomação, ainda sem título, mas que tem o tema da negação como base.
Hoje cedo ouvi no rádio Renato Russo cantando “Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo/E até que é fácil acostumar-se com meu jeito” (trecho de O Mundo Anda Tão Complicado, letra e música do Legião Urbana). Como diria Fanta Maria, personagem de A Bofetada, da Cia. Baiana de Patifaria, que revi anteontem no Mosaico Baiano (programa da TV Bahia), depois de tantos anos, “é a minha cara!”
Quantos papéis tenho hoje na vida? Tem o bancário, analista da Caixa, que trabalha na área de Tecnologia da Informação; tem o filho de pais recém-separados, que tem que lidar com a situação da melhor maneira, visto que sempre foi visto com o conciliador, irmão de Cídia, que teve uma breve carreira como cantora, mas frustrou-se e hoje vive numa correria como empresária, dona de uma franquia ao lado do marido, e de Caio, que se formou em Administração, tem um certo gosto pela gastronomia, mas não demonstra grandes ambições para preocupação de minha mãe. Só para complicar um pouco, minha mãe teve um câncer em 2010, extirpado e curado e, na sequência, meu irmão descobriu um câncer no final do ano passado, também já extirpado e em processo de tratamento para garantir a cura, e cada um mora num canto (Bahia, Rio, DF). Além disso, eu preciso cuidar da casa – moro só há 6 anos, então tem o dono-de-casa (esse é bem ruinzinho, diga-se de passagem). Tem o amigo, atualmente mais próximo de Michelle, Roberto e Diógenes. Tem vários outros, mas a gente sempre elege alguns com quem pode contar. Aquela pessoa de quem você já foi na casa, que foi na sua casa, com quem já se compartilhou confissões muito íntimas e com quem já se viveu coisas pra ficarem marcadas nas histórias pessoais – esse papel requer alguma dedicação. Eu já perdi alguns amigos, por falta de cuidado, como já aconteceu com algumas plantinhas que eu já tive também – comparação meio esdrúxula, mas que faz algum sentido. Preciso manter os vínculos com algumas pessoas que além de queridas são muito importantes para mim, tanto para a vida quanto para a carreira – mestres, anjos, colegas etc – e isso também toma um certo tempo, requer investimento com certa periodicidade. Ah! Também sou padrinho de 4 meninas, de diversas idades, todas morando em Vitória da Conquista e sou o organizador da cooperativa Natura lá do trabalho e também organizo os eventos de confraternização da minha equipe. Sem contar uma penca de ideias e projetos que tenho para desenvolver que não posso abandonar totalmente, porque senão, daqui a pouco, já perdeu a razão de ser ou alguma outra pessoa já fez. Aí tem a faculdade.
E eu invento de investigar todos os outros papéis que o ator e a atriz precisam desempenhar num processo de criação coletivo, colaborativo. Sim, porque, além de interpretar, antes, depois ou durante, nós precisamos criar, elaborar, escrever, ser dramaturgos portanto. Precisamos nos dirigir na criação de cenas que serão exibidas para que o grupo aprecie e os diretores finais cortem ou modifiquem. Precisamos criticar o trabalho do outro e do grupo e ter também uma visão crítica do próprio trabalho. Teremos, em algum momento, que tomar decisões quanto a cenário, figurino, objetos de cena, iluminação – agora mesmo estamos às voltas com o dilema de onde será a nossa apresentação. Teremos que cuidar também da divulgação do nosso espetáculo e de como ele será recebido pelo público, ou seja, todos os aspectos de uma produção de um evento cultural. Dramaturgos, diretores, críticos, encenadores, produtores, além de atores e atrizes e observadores do processo, de forma que sejamos capazes de produzir nossas monografias depois de tudo. Mas… eu sempre faço mil coisas ao mesmo tempo e até que é fácil acostumar-se com meu jeito… e essa obra está só começando. Ou já está pelo meio? E ela terá um fim? Ou esse fim será apenas o nosso começo? Que a arte nos aponte umas respostas.